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segunda-feira, 21 de julho de 2008

PAÍS ENVELHECE

País envelhece com mais rapidez do que se previa
Taxa de natalidade atingiu 1,8 filho por mulher em 2006, nível esperado para 2043

Com cada vez mais velhos e menos crianças, políticas públicas terão que ser revistas para se adaptar à realidade da população

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO - Jornal Folha de São Paulo, 21/07/2008


O envelhecimento populacional brasileiro chegará antes do que se estimava. A divulgação, no início deste mês, da PNDS (Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde) mostrou que o país chegou, em 2006, a uma taxa de fecundidade de 1,8 filho por mulher. O IBGE, em sua estimativa oficial, feita em 2004, previa que esse patamar só seria atingido em 2043.


Nem mesmo projeções da ONU menos conservadoras indicavam uma taxa abaixo de 2,0 antes de 2010. Diante dessa e de outras pesquisas que registraram fecundidade menor, o IBGE revisará suas estimativas.

Mais do que uma simples revisão de um cálculo estatístico, a constatação de que o Brasil terá cada vez mais idosos e menos crianças antes do previsto tem impacto em cálculos de aposentadoria e traz desafios para políticas públicas, que terão que se adaptar a uma estrutura populacional envelhecida.

A demógrafa Elza Berquó, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e coordenadora da PNDS, lembra que as Pnads (Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios, feitas anualmente pelo IBGE) já indicavam que a fecundidade caía num ritmo mais acelerado do que o estimado pelo instituto.

Em 2004, a taxa chegou ao nível de 2,1 filhos por mulher, patamar que indica tendência de reposição populacional e que, pelas estimativas do IBGE, só seria atingido em 2014.
"O movimento de transição da fecundidade se iniciou há 40 anos e os dados recentes são coerentes com a série histórica. Não sei por que o IBGE continuou trabalhando com essa estimativa [de queda menor]. Não faço projeções, mas, a julgar por essa tendência, acho que a fecundidade continuará caindo", diz Berquó.


Fernando Albuquerque, que participou da elaboração das estimativas do IBGE, diz que o instituto projetou queda menor porque o Censo de 2000 e a Pnad de 2001 não sugeriam queda acentuada. "As Pnads de 2002 a 2006, no entanto, registraram um declínio mais rápido. Por isso, já estamos revendo a projeção para incorporar os resultados recentes."
O demógrafo José Eustáquio Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, diz que a queda mais rápida da fecundidade indica que a população começará a diminuir antes. Pela estimativa do IBGE, isso aconteceria somente a partir de 2062. A projeção da ONU com taxas mais próximas das verificadas recentemente, no entanto, aponta que isso deve acontecer já na década de 2030.


O envelhecimento mais rápido que o estimado traz desafios ao país. Um deles é aumentar os investimentos em saúde para atender melhor aos idosos.

Previdência


Outro diz respeito ao equilíbrio das contas da Previdência. Anualmente, quando o IBGE divulga aumento da expectativa de vida, isso altera o fator previdenciário, índice que acaba aumentando o tempo que o trabalhador precisa contribuir com o INSS para se aposentar com o mesmo benefício.


Carlos Guerra, vice-presidente da Federação Nacional de Previdência Privada, diz que os impactos também serão sentidos no setor particular, que poderá absorver mais insatisfeitos com os resultados da Previdência oficial, mas que, igualmente, precisará se adaptar.


"O equilíbrio ideal é ter cinco contribuintes para cada inativo, mas já estamos nos aproximando da situação de um para um", diz Guerra. Segundo ele, planos que garantem renda vitalícia mensal perderão espaço para outros com opção de fazer um resgate maior do benefício.

Apesar dos desafios que a queda mais intensa da fecundidade trará, Eustáquio Alves alerta que não se deve trocar o mito da "explosão populacional" pelo da "implosão populacional". "Não há por que ficar apavorado com a redução da população. Ela pode ser boa ou ruim dependendo de como a sociedade e as políticas públicas respondem a isso."

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Por que jogamos na loteria?

Hoje na Folha de S.Pauloequilíbrio


Matemáticos e economistas adoram fazer tabelas com as chances de investimentos darem certo ou errado e dizem que devemos usá-las para tomarmos decisões racionalmente. Faz sentido, é claro. Só não funciona na prática -porque o ser humano teima (felizmente!) em não se guiar apenas pela razão.

Por exemplo: diz a matemática financeira que devemos sempre aceitar qualquer divisão, de prêmios ou balas, que nos for ofertada. Mesmo as injustas: afinal, qualquer coisa no bolso é melhor do que um bolso vazio. No entanto, ofertas injustas despertam protestos do córtex da ínsula, aquela parte do cérebro que sinaliza desgosto e repulsa. Se a ínsula fala alto o suficiente, seus protestos ganham das tendências racionais -e acabamos por recusar uma oferta que, racionalmente, deveríamos ter aceito.

Loterias são exemplos divertidos do oposto: situações em que a razão manda não fazer investimento algum, pois a chance de retorno é ínfima. A própria Caixa deixa bem claro em seu site: a chance de um apostador da Mega-Sena jogar em seis números e acertar todos os seis em um concurso qualquer é de 1 em 50 milhões.

Dito de outra forma, quem faz um jogo tem 49.999.999 chances em 50 milhões de apenas ficar R$ 1,50 mais pobre. O córtex pré-frontal toma nota e vota -racionalmente- por guardar o R$ 1,50 no bolso. Mas outra parte do cérebro pensa em outra coisa: quão bom seria ganhar o prêmio? Por mais que seja improvável, o evento de um prêmio de vários milhões de reais certamente seria razão de grande euforia e de muitas coisas desejáveis -casa própria, carro, segurança. O sistema de recompensa, que sinaliza para o restante do cérebro o que tem chances de dar bons resultados, também toma nota e dá seu voto.

Quem toma a decisão, no final das contas, parece ser uma região no centro do córtex pré-frontal, que pesa os possíveis custos (quanto a ínsula se importa de perder R$ 1,50) e benefícios (quanto o sistema de recompensa gostaria do prêmio). Pelo jeito, essa parte do cérebro de cerca de 2 milhões de brasileiros entende a cada concurso que R$ 1,50 é um custo baixo para concorrer à chance, mínima, mas real, de ganhar uma bolada.
Se fôssemos puramente racionais, nunca apostaríamos na Mega-Sena -e, como o prêmio vem da arrecadação com as apostas, não haveria prêmios milionários a dividir entre improváveis ganhadores. Afinal, certo mesmo é o seguinte: quem não joga na loteria tem 100% de chances de não ganhar!



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SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, professora da UFRJ, autora do livro "Fique de Bem com o Seu Cérebro" (Editora Sextante) e do site O Cérebro Nosso de Cada Dia
www.cerebronosso.bio.br
suzanahh@folhasp.com.br


"Se fôssemos puramente racionais, nunca apostaríamos na Mega-Sena"

domingo, 13 de janeiro de 2008

É bom ser infeliz


Por Luiz Carlos Prates

Tenho falado inúmeras vezes aqui sobre felicidade, mas não tenho falado de infelicidade. Não me tenho envolvido com tanta freqüência com essa irmã gêmea da deusa felicidade. A infelicidade é feiosa, mas não deixa de ser irmã da bonitona, o que as separa pode ser apenas o nosso humor do dia...

Digo isso, leitora, pensando em duas coisas. A primeira é a fila que vi nos jornais de pessoas lutando para pegar uma caixinha de antidepressivos. Um horror. Um horror ainda que eu tenha certeza pétrea de que a maioria daquelas pessoas não sofre de depressão, sofre de infelicidade, de uma infelicidade gerada por questões reais ou imaginárias.

Não quero ser cruel e dizer que, mais das vezes, imaginárias. E a segunda questão, dentro do mesmo assunto, vem de uma frase que li ontem em um livro do indiano Osho.

Osho parecia maluco, dizia coisas estonteantes, mas ah, se não fossem os loucos na vida, ficaríamos vazios de soberanas verdades. Não tenho tempo de me alongar, vou ao que disse o Osho. Ele disse que quem é infeliz não sofre de solidão, tem sempre por perto multidões dispostas a conversar, a ajudar, a emprestar mão amiga e solidária. Acrescento: nada como ser infeliz para ser amado, apreciado, alisado.

Mas tente ser feliz e deixar isso transparecer diante dos "amigos", tente. A felicidade provoca nos outros iras profundas. Nada nos incomoda mais que a felicidade alheia, que se danem os felizes, que tropecem numa pedra, pensamos no silêncio da inveja. Mas não pensamos assim de modo consciente, pensamos assim nos porões escuros do subconsciente. A culpa não é minha, é de Freud que puxou as cortinas desses porões.

E tem mais e pior. Muitos buscam na infelicidade a imagem da sofredora, da vítima, da pessoa que precisa de cuidados especiais. A "doença" traz então essa vantagem: nos faz "queridos", simpáticos. Inconscientemente muitos de nós queremos adoecer, estar deprimidos diante dos outros; disso resulta o que Freud chamou de "vantagens secundárias da doença". Sábio, Freud. Queres ficar só, leitora? Diga aos amigos que você é muito feliz, que está muito feliz, diga que o seu casamento é santo. Você vai ser odiada. Diga que é um pobre sofredor e viverá rodeado de simpatias...

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Extraído do jornal Diário Cararinense - 13/01/08

Edgar Morin - O futuro da poesia


Texto adaptado por Airton Soares

Ensaiarei sustentar a seguinte tese: o futuro da poesia reside em sua própria fonte. Mas que fonte é essa?

É difícil perceber. Ela se perde nas profundezas humanas tanto quanto nas profundezas da pré-história, onde surgiu a linguagem, nas profundezas dessa embalagem estranha que é o cérebro e o espírito humano. Gostaria de adiantar algumas idéias preliminares para falar de poesia.

Inicialmente, é preciso reconhecer que, qualquer que seja a cultura, o ser humano produz duas linguagens a partir de sua língua:
racional,empírica,prática, técnica; simbólica, mítica, mágica.

A primeira tende a precisar, denotar, definir, apóia-se sobre a lógica e ensaia objetivar o que ela mesma expressa.

A segunda utiliza mais a conotação, a analogia, a metáfora, ou seja, esse halo de significações que circunda cada palavra, cada enunciado e que ensaia traduzir a verdade da subjetividade.

Essas duas linguagens podem ser:


  1. justapostas ou misturadas,
  2. podem ser separadas, opostas,
e a cada uma delas correspondem dois estados: O primeiro, também chamado de prosaico, no qual nos esforçamos por perceber, raciocinar, e que é o estado que cobre uma grande parte de nossa vida cotidiana.O segundo estado, que se pode justamente chamar de "estado segundo", é o estado poético.

O estado poético pode ser produzido pela dança, pelo canto, pelo culto, pelas cerimônias e, evidentemente, pelo poema. Fernando Pessoa dizia que, em cada um de nós, há dois seres.

O primeiro, o verdadeiro, é o dos nossos sonhos, que nasce na infância e que continua pela vida toda.

O segundo ser, o falso, é o das aparências, de nossos discursos, atos, gestos. Não diria que um é verdadeiro e o outro, falso, mas, efetivamente, a cada um desses dois estados correspondem dois seres em nós.

A esse estado segundo corresponde o que o adolescente
Rimbaud percebeu muito claramente, principalmente em sua famosa Carta do vidente. Esse estado não é um estado de visão, mas um estado de vidência.

Poesia-prosa constituem, portanto, o tecido de nossa vida.

Hölderlin afirmava: "O homem habita a terra poeticamente."

Acredito ser necessário dizer que o homem a habita, simultaneamente, poética e prosaicamente. Se não houvesse prosa, não haveria poesia, do mesmo modo que a poesia só poderia evidenciar-se em relação ao prosaísmo. Em nossas vidas, convivemos com essa dupla existência, essa dupla polaridade.

Nas sociedades arcaicas, injustamente chamadas de primitivas, que povoaram a terra e formaram a humanidade, e que estão sendo massacradas na Amazônia e em outras regiões, havia uma relação estreita entre esses dois estados, que se encontravam entrelaçados.

Na vida cotidiana, o trabalho era acompanhado por cantos e ritmos, e enquanto preparava-se a farinha nos pilões, cantava-se ou utilizava-se esses mesmos ritmos.

Tomemos como exemplo a preparação da caça, testemunhada pelas pinturas pré-históricas, principalmente as da gruta de Lascaux, na França.

Essas pinturas indicam que os caçadores realizavam ritos de encantamento sobre a caça, pintados depois na rocha. Mas não se satisfaziam apenas com eles: utilizavam flechas reais, estratégias empíricas, ou misturando as duas. Em nossas sociedades contemporâneas ocidentais operou-se uma disjunção entre os estados da prosa e da poesia.

1 notAS: Antes da revolução industrial a criança se vestia igual aos pais. Todos trabalham e brincavam juntos. Não havia diferença nítida (rígida) entre o trabalhar e brincar. O fazer era um só, composto de fazer-de-conta e fazer fazer. (nota ainda em rascunho)

Houve duas rupturas. A primeira ocorreu a partir da Renascença, quando se desenvolveu uma poesia cada vez mais profana. Ocorreu, igualmente, a partir do século XVII, uma outra dissociação entre uma cultura dita cientifica e técnica e uma cultura humanista, literária, incluindo a poesia.

Foi a partir dessas duas dissociações que a poesia autonomizou-se e tornou-se estritamente poesia. Separou-se da ciência, da técnica e, evidentemente, separou-se da prosa.

Separou-se dos mitos e, com isso, quero dizer que ela não é mais mito, embora sempre se nutra de sua fonte, que é o pensamento simbólico, mitológico, mágico. Em nossa cultura ocidental, tanto a poesia quanto a cultura humanista foram relegadas. Relegadas no lazer e no divertimento, relegadas por
adolescentes e por mulheres, transformaram-se, de algum modo, num elemento inferiorizado em relação à prosa da vida.

Houve duas revoltas históricas da poesia. A primeira foi a do romantismo, principalmente o de origem alemã. Representou a revolta contra a invasão da prosaidade, do mundo utilitário, do mundo burguês, que se desenvolveu no início do século XIX.

A segunda revolta foi a do surrealismo, cuja ocorrência pode ser situada no início do século XX. O surrealismo representou a recusa da poesia em se deixar reduzir ao poema, quer dizer, a uma pura e simples expressão literária. Não se trata de uma negação ao poema, porque Breton, seguido por Péret, Eluard e outros, fizeram poemas admiráveis; mas a idéia surrealista é a de que a poesia extrai sua fonte da vida, com seus sonhos e acasos. Todos sabemos a importância que os surrealistas atribuíam ao acaso. O que ocorreu, então, foi uma desprosaização da vida cotidiana, que começou com Arthur Rimbaud, quando este se maravilhou com as tendas militares estrangeiras e com o latim das igrejas.

Os surrealistas dignificaram o cinema e foram os primeiros a admirar Charlie Chaplin. Em resumo, a primeira mensagem surrealista foi desprosaizar a vida cotidiana, reintroduzir a poesia na vida. Havia também uma revolta com aspirações revolucionárias, não apenas contra o mundo prosaizado, mas contra os horrores produzidos pela Primeira Guerra Mundial. Breton pretendeu associar a fórmula política revolucionária "mudar o mundo" à fórmula poética surrealista "mudar a vida". Mas essa aventura acarretou muitos equívocos, inclusive a autodestruição dos poetas, quando os mesmos pretenderam subordinar a poesia a um partido político.

E aqui se encontra um dos paradoxos da poesia. O poeta não precisa se fechar no território restrito e confinado dos jogos de palavras e símbolos. O poeta possui uma competência total, multidimensional, que concerne à humanidade e à política, mas não pode se deixar submeter à organização política. Sua mensagem política implica ultrapassar o político. Localizamos, portanto, duas revoltas de poesia. E agora, qual é sua situação neste fim de século e de milênio?

Inicialmente, podemos nos referir a uma grande expansão da hiperprosa, que se articula à expansão de um modo de vida monetarizado, cronometrado, parcelarizado, compartimentado, atomizado e de um modo de pensamento no qual os especialistas consideraram-se competentes para todos os problemas, igualmente ligados à expansão econômico-tecnoburocrática. Diante dessas condições, penso que esta invasão da hiperprosa cria a necessidade de uma
hiperpoesia.

Há outro fato que marca este final de século: a destruição, ou melhor, a autodestruição da idéia de salvação terrestre. Acreditou-se que o progresso estava automaticamente garantido pela evolução histórica. Acreditou-se que a ciência seria sempre progressiva, que a indústria sempre traria benefícios, que a técnica só traria melhorias. Acreditou-se que as leis históricas garantiriam o desenvolvimento da humanidade e, tomando por base esse argumento, acreditou-se ser possível atingir a salvação na terra, ou seja, o reino da felicidade que as religiões prometiam no céu.

O que se constata hoje é o abandono da idéia de uma salvação na terra, o que não significa ser necessário renunciar à idéia de aperfeiçoar as relações humanas e civilizar a humanidade. O abandono da idéia de salvação encontra-se ligado à compreensão de que não existem leis históricas, que o progresso não é automático e nem se encontra garantido. O progresso deve não apenas ser conquistado, mas, uma vez conquistado, pode regredir, tornando-se sempre necessário regenerá-lo.


Hoje, como afirma o filósofo tcheco Patocka,
"o futuro encontra-se problematizado e ficará assim para sempre".


Situamo-nos nesta aventura incerta e, a cada dia, os acontecimentos que se produzem no mundo indicam que nos encontramos na noite e na neblina. E por que é assim? Porque ingressamos plenamente na era planetária, uma era na qual ações múltiplas e incessantes encontram-se em todas as partes da Terra, e no que concerne aos poços de petróleo do Iraque e do Kuwait diz respeito à humanidade como um todo. Ao mesmo tempo, devemos compreender que nos encontramos nesse pequeno planeta, nessa casa comum, perdidos no cosmos, e que nossa missão deve ser efetivamente a de civilizar as relações humanas sobre o nosso planeta.

As religiões e política salvacionistas reiteram: sejamos irmãos, porque seremos salvos. Acredito que hoje seja necessário dizer:
sejamos irmãos porque estamos perdidos num planeta suburbano, de um sol suburbano, de uma galáxia periférica, de um mundo desprovido de centro. Mesmo assim, possuímos plantas, pássaros, flores, assim como a diversidade de vida, as possibilidades do espírito humano. Doravante, aqui residirão nosso único fundamento e nosso único recurso possível.

A descoberta de nossa situação de perdição num gigantesco cosmos adveio das descobertas da astrofísica.Isto significa que, atualmente, é possível um diálogo entre ciência e poesia,* e isso porque a ciência nos revela um universo fabulosamente poético ao redescobrir problemas filosóficos capitais: "O que é o homem?" "Qual é o seu lugar?" "Qual é o seu destino?" "O que se pode esperar dele?" Com efeito, o antigo universo de ciência era uma máquina perfeita, inteiramente determinista, animado por um movimento perpétuo, um relógio permanente no qual nada ocorria, nada era criado, nada se alterava. Esta máquina, lamentavelmente pobre em sua perfeição, desintegrou-se. E o que vemos agora? Sabemos que o universo nasceu, talvez,15 bilhões de anos, de uma fantástica explosão, de onde bruscamente brotaram o tempo, a luz, a matéria, como se esse início fosse uma espécie de explosão desorganizadora a partir da qual o universo organizou-se. Encontramo-nos numa incrível aventura. A vida nos parecia banal, evidente, mas descobrimos que uma bactéria, com seus milhões de moléculas, é mais complexa do que todas as usinas do
Ruhr reunidas.

* 2 notAS: Isto me fez lembrar o brasileiro Marcelo Gleiser. Ele é professor de Física do Dartmouth College, nos EUA, onde ministra a disciplina Física para poetas, um sucesso entre estudantes de várias áreas. Saiba +

Demonos conta de que o real, que parecia tão sólido e evidente, dissipou-se sob o olhar da microfísica, e que, do ponto de vista do cosmos, o tempo e o espaço, que pareciam tão distintos, se misturaram. Muitos astrofísicos pressentem que esse mundo de separação do espaço e do tempo é como uma espuma constituída por algo diferente em que as separações do espaço e do tempo não existem mais.

Onde se encontra a poesia hoje? Na poesia e em outros domínios adquirimos a idéia de que não existe vanguarda, no sentido de que a vanguarda traz algo melhor do que aquilo que havia antes. Talvez a idéia pós-moderna consista em afirmar que o novo não é necessariamente o melhor.



Fabricar o novo pelo novo é estéril.

O problema não reside na produção sistemática e forçada do novo. A verdadeira novidade nasce sempre de uma volta às origens.



Por que Jean Jacques Rousseau é tão prodigiosamente novo? Porque pretendeu debruçar-se sobre a fonte da humanidade, a origem da propriedade e da civilização e, no fundo, toda novidade deve passar pelo recurso e pelo retorno ao antigo.
3 notAS Citar Machado de Assis. "Nem tudo tinha os antigos

Pode ser que essa idéia seja pós-moderna, ou mesmo pós-pós-moderna, mas tudo isso é secundário. O objetivo que permanece fundamental na poesia é o de nos colocar num estado segundo, ou, mais precisamente, fazer com que esse estado segundo converta-se num estado primeiro. O fim da poesia é o de nos colocar em estado poético.

Fragmento extraído de:
"Amor Poesia Sabedoria", Edgar Morin, Bertrand do Brasil, 2003.

Tags: filosofia
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Via: http://claudioalex.multiply.com/reviews/item/471

Edgar Morin - biografia

Edgar Morin, nasceu em Paris em 8 de julho de
1921, um sociólogo e filósofo francês.

Formado em Direito, História e Geografia se adentrou na Filosofia, na
Sociologia e na Epistemologia.

Um dos principais pensadores sobre complexidade. Autor de mais de trinta livros, entre eles: O método, Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência e Os sete saberes necessários para a educação do futuro.


Outra obra de destaque - especialmente de cunho acadêmico pedagógico - é o livro "A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento."

Dentre outros questionamentos formulados pelo autor no livro, Morin afirma que, diante dos problemas complexos que as sociedades contemporâneas hoje enfrentam, apenas estudos de caráter inter-poli-trandisciplinar poderiam resultar em análises satisfatórias de tais complexidades:

"Afinal, de que serviriam todos os saberes parciais senão para formar uma configuração que responda a nossas expectativas, nossos desejos, nossas interrogações cognitivas?.” MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003, p. 116.
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Saiba + http://pt.wikipedia.org/wiki/Edgar_morin