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domingo, 4 de novembro de 2007

Vendendo partes do corpo


FRASES A EVITAR

Por Luiz Carlos Prates (*)

Os jovens que já me ouviram em palestras em escolas devem lembrar que digo a eles em bem voz alta e repetidas vezes que não sejam tolos, que evitem dizer mais tarde, nos adiantados da vida, "ah, como fui burro"; "ah, como me arrependo do que fiz"; "ah, se eu pudesse voltar atrás!"

Essas frases são amargas, são irremediáveis, remetem-nos ao passado. E a única força que o passado pode ter é a de nos fazer recordar as lições por que passamos, as boas e as más. Das boas não precisamos tanto, mas recordar as más experiências pode fazer-nos evitá-las novamente. Para mais nada serve o passado. Aliás, alguém já disse que recordar é viver. Depende. Se a vivência foi má, a recordação faz sofrer outra vez, se foi boa, passou.

Melhor é viver aqui e agora, e deixar da tolice de viver lá e então, sempre no futuro. Eu não viria a este assunto, leitora, não fossem as repetidas tentações por que passamos na vida, as tentações estão em todas as esquinas. E tentações são sempre boas, boas para o momento presente, no futuro elas se tornarão vinagrosas, e de fundos e inúteis lamentos.

Esta conversa se alicerça sobre uma notícia que acabei de ler e que vem de Porto Alegre, ainda que envolva pessoas de todo o Brasil. São pessoas que estão com a corda financeira no pescoço, devendo uma boa vela para o santo...

E essas pessoas, sem ter a quem pedir dinheiro, sem crédito na praça, sem nada, colocam anúncios nos jornais ou na internet oferecendo partes do corpo, como os rins, por exemplo. Os preços vão de R$ 30 mil a R$ 100 mil. Quer dizer, pessoas que sem a intenção nobre da doação estão se oferecendo para a mutilação para pagar dívidas.

Santo Deus, como vão se arrepender no futuro, como vão dizer a si mesmas: "ah, como fui burro, como me arrependo do que fiz!" Será que com R$ 30 mil alguém pode se ajeitar na vida? Nem com 1 milhão se não tiver cabeça. E cabeça é o que mais falta nas pessoas. Desespero leva a desespero maior.

Se você, que Deus a livre, leitora, leitor, estiver numa dessas, com a corda no pescoço, não esqueça: todo problema tem saída. Aliás, já falei disso aqui, citei o filme A Sociedade dos Poetas Mortos, onde o professor ensina os alunos a subir sobre uma mesa imaginária, vão acabar vendo as dificuldades da vida por outro ângulo, esse ângulo é a saída que não fora vista antes. Por nada e por razão alguma se entregue. A única luta que não vale a pena é lutar pelo amor de alguém. Nesse caso, é tolice. Amor se ganha, não se pede ou se luta por ele. No mais, à luta.

(*) Luiz Carlos Prates é psicólogo e escreve no Diário Catarinense.